Nessa página você vai ler sobre a surdocegueira, formas de comunicação, motivação e história do projeto.
Um pouco sobre a surdocegueira
Surdocegueira é uma condição em que o indivíduo tem baixa visão simultaneamente com baixa audição, muitas vezes de forma degenerativa ou completa. Uma das causas mais comuns é a Síndrome de Usher, uma doença genética rara que causa surdez ou perda auditiva e uma condição ocular degenerativa chamada Retinite Pigmentosa, que leva à perda progressiva da visão, geralmente com início na adolescência. Estima-se que a prevalência seja de 3 a 6 pessoas a cada 100.000 habitantes. Outros fatores também podem levar à surdocegueira, a estimativa é que existam 40.000 pessoas surdocegas no Brasil e aproximadamente 1,6 milhões de pessoas surdocegas no mundo.
No processo de adaptação do indivíduo é indispensável um atendimento educacional especializado e personalizado. E por ser uma condição que afeta os dois sentidos responsáveis por receber informação a distância, o tato se torna a principal forma de comunicação, que normalmente é realizada presencialmente com outra pessoa.
O uso de dispositivos eletrônicos, o acesso à informação, além do senso de independência e privacidade, tornam-se um desafio difícil de gerenciar por todos os envolvidos: a pessoa surdocega, os educadores e familiares.
Sobre mim e motivação
Eu me chamo Anderson, eu sou um desenvolvedor independente de hardware e software, atualmente moro em Curitiba - PR. Eu tenho bastante interesse em interfaces humano computador, e em formas diferentes de interagir com dispositivos eletrônicos.
O projeto surgiu em 2015 de uma necessidade encontrada de forma inesperada: meu tio trabalhava no CODI (Centro de Orientação aos Deficientes de Itanhaém - SP) e relatou o caso de uma pessoa surdocega recém-chegada e como eles tinham dificuldade de integrá-la nas atividades do centro, além do fato de ela passar bastante tempo sozinha sem poder interagir com outras pessoas. Ela se comunicava principalmente por escrita alfabética, onde cada letra era escrita em sequência em sua palma da mão, formando frases que às vezes levavam minutos para serem entendidas.
Eu ainda estava na faculdade e fiz uma busca rápida para tentar achar algo que pudesse ajudar. Dispositivos como a linha braille eram muito caros e projetos de acessibilidade, como as luvas eletrônicas de escrita alfabética, não estavam disponíveis no mercado, além disso, a informação sobre o funcionamento/usabilidade era limitada.
Durante uma competição de hardware internacional, resolvi inscrever o projeto de uma plataforma aberta para desenvolvimento de dispositivos digitais táteis acessíveis chamada Tact Tiles. Mais tarde, como validação do projeto, criei uma luva que permitia enviar e receber mensagens de texto pelo tato.
Como a pessoa surdocega se comunica?
Existem muitas formas de uma pessoa surdocega se comunicar, o método usado depende de diversos fatores e é escolhido caso a caso dependendo das necessidades de cada um.

Libras Tátil
Método comum de comunicação onde o interlocutor realiza gestos complexos enquanto a pessoa surdocega os sente, como cada gesto pode representar uma palavra é uma forma eficiente de se comunicar.

Tadoma
Funciona como leitura labial tátil, a pessoa surdocega sente o rosto do interlocutor conseguindo distinguir as palavras ditas, normalmente usado por pessoas que eram surdas com habilidade em leitura labial e perderam a visão.

Escrita alfabética
Aqui o interlocutor desenha letra a letra na palma da pessoa surdocega, é um processo de comunicação lento mas que é relativamente simples para ambas as partes.

Linha braille
O dispositivo ideal para uso pessoal da pessoa surdocega, permitindo a inclusão digital. Possui um teclado braille e células mecânicas que exibem caracteres em relevo, porém seu custo pode facilmente chegar a dezenas de milhares de reais, dependendo do modelo e capacidades.
Desafio de interação humano-computador
Para o uso da tecnologia, utilizamos nossos sentidos de visão e audição. Poucos equipamentos foram projetados para pessoas que têm limitações sensoriais e, quando a condição afeta ambos os sentidos, aparece um problema difícil de resolver: como converter um meio de comunicação tátil já existente para o meio digital?
Linguagens de sinais podem ser convertidas digitalmente por meio de câmeras ou dispositivos vestíveis, porém a audição ainda é essencial para o uso. Formas táteis dessas linguagens são inviáveis do ponto de vista técnico, pelo fato de usarem dispositivos mecânicos avançados como braços ou mãos robóticos. A alternativa ideal é a linha braille, porém muitas vezes o preço é proibitivo.
Durante a pesquisa inicial, foi encontrada a Mobile Lorm Glove, um dispositivo vestível no formato de uma luva que transcrevia palavras em gestos usando motores de vibração e também funcionava como um teclado. Um dispositivo similar é a DBglove, que usava um outro tipo de alfabeto tátil. Ambos os dispositivos não estavam à venda em 2015. O projeto surgiu então para criar uma plataforma de desenvolvimento de dispositivos digitais táteis acessíveis chamada Tact Tiles.

Tact Tiles
É uma plataforma aberta para desenvolvimento de dispositivos de interação tátil, consiste de uma placa principal com capacidade de conexão com até 32 células táteis (tiles) que são sensores de toque com um motor de vibração. Essas células podem então ser costuradas em dispositivos vestíveis e configuradas para representarem letras usando gestos.
Escolha do alfabeto tátil
No início do projeto, foi investigada a possibilidade de criar uma linha braille de baixo custo, porém essa ideia foi rapidamente descartada devido à complexidade mecânica da ativação de cada ponto da célula braille, além disso, a pessoa surdocega ainda não tinha aprendido braille. A alternativa escolhida a ser digitalizada foi o alfabeto tátil manual.
Existem muitos tipos de alfabetos táteis, alguns com muitos pontos, outros com gestos complexos (que podem ser difíceis de simular usando as células táteis). Era necessário escolher um com bom balanceamento entre número de pontos e complexidade dos gestos.

Foi então escolhido o alfabeto tátil Malossi, em que 16 pontos são usados para representar o alfabeto. Os pontos seguem uma ordem lógica sequencial, e alguns são tocados e outros são beliscados. O belisco é um gesto que não pode ser traduzido facilmente e foi substituído por um gesto de toque duplo/dois pulsos de vibração. Também o fato de ter 16 pontos, e esse número ser múltiplo de 8, ajuda no dimensionamento do circuito.
Limitações
A Luva Helena resolve um problema muito específico: ela é uma alternativa de baixo custo à linha braille para pessoas surdocegas. O projeto ainda está em desenvolvimento e possui alguns obstáculos ainda a serem superados, como o tempo de produção artesanal de um exemplar, baixa robustez mecânica por conta do número de fios, e necessidade de mão de obra especializada para montagem. Esses fatores tornam inviável o seu uso cotidiano e elevam o custo de cada unidade.
A principal limitação do dispositivo é a velocidade de leitura, a luva escreve letra a letra na palma da mão do usuário. Isso pode ser uma ajuda quando a principal forma de comunicação é a escrita alfabética. Comparada com a linha braille ou libras tátil, a velocidade de leitura é bem inferior.
Algumas sessões foram realizadas com a pessoa surdocega com resultados bem promissores. Ficou evidente que a curva de aprendizado é bem menor do que o esperado e que é necessário que a usabilidade do dispositivo esteja bem definida para que a explicação de seu funcionamento seja o mais breve e concisa possível, para não gerar dúvidas.
A proposta do projeto é funcionar como uma ponte para inclusão digital e social. A pessoa surda e cega não precisa de outra pessoa fisicamente presente dando atenção exclusiva. Ela escreve mensagens, envia, e recebe as respostas, podendo eventualmente ter suas próprias anotações ou pesquisas.
Projetos de acessibilidade têm notoriedade por não serem viáveis economicamente. A pesquisa é cara, a validação é cara, a produção é cara, e o público-alvo normalmente precisa de dispositivos mais acessíveis e de baixo custo. Por isso o projeto é documentado e divulgado online para que possa receber contribuições de qualquer pessoa que queira ajudar ou estudar sobre.
Futuramente a luva também pode servir como ferramenta educacional no processo de adaptação de pessoas que estão perdendo visão e audição, embora atualmente não exista uma técnica pedagógica desenvolvida em torno dela.
Atualmente existe apenas uma unidade funcional, que é usada para desenvolvimento. Mais unidades serão montadas artesanalmente na próxima iteração do projeto, onde o foco será na robustez mecânica e na redução do custo.
O tempo dedicado ao desenvolvimento desse projeto é limitado e houve alguns hiatos ao longo dos anos. Caso tenha interesse em ajudar ou quiser conversar sobre o projeto, entre em contato.