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O projeto Helena Glove é uma iniciativa de pesquisa e desenvolvimento em hardware, software e usabilidade, com foco na criação de um dispositivo de comunicação acessível. O objetivo é permitir a inclusão social e digital de pessoas que possuem comprometimento simultâneo dos sentidos de visão e audição, como é o caso da surdocegueira (leia mais).

Fotografia da luva Helena Glove montada com seus componentes eletrônicos visíveis sobre o tecido.

O que é? Um dispositivo eletrônico vestível projetado para permitir a comunicação pelo tato com pessoas com deficiência sensorial múltipla.

Close-up da fiação e dos pontos de contato táteis na ponta dos dedos da luva, mostrando a construção interna.

Como funciona? A luva funciona como um teclado, permitindo escrever mensagens de texto ao digitar em suas teclas. Cada tecla também pode vibrar de forma independente, permitindo ler, letra a letra, as mensagens de texto recebidas.

Dedo da mão direita tocando um dos pontos interativos na palma da mão esquerda vestindo a luva.

Interação Ao vestir a luva você usa sua mão direita para digitar em sua mão esquerda: "Você escreve na luva e ela escreve em você". Através do tato, a luva permite a conversação autônoma e independente.

Visão panorâmica da luva e seus componentes eletrônicos.

Interface Tátil Por meio de um ou dois toques em cada um dos 16 pontos interativos é possível codificar todas as letras do alfabeto mais o espaço. O dispositivo também possui um botão de retorno, também usado para trocar o modo de operação.

Frente e verso da placa de circuito impresso (PCB) personalizada para os pontos de contato da luva.

Tecnologia colaborativa Toda a tecnologia desenvolvida pelo projeto é compartilhada publicamente, permitindo que outros pesquisadores e desenvolvedores possam contribuir para o projeto.

Close-up artístico da placa de circuito impresso com acabamento dourado e componentes soldados.

Made in Brazil Para que o projeto possa ajudar pessoas em todo o mundo, toda a documentação do projeto é escrita em inglês, mas isso não tira o mérito que toda a tecnologia é desenvolvida no Brasil.

Em 2017 o projeto participou novamente da competição internacional Hackaday Prize, o vídeo abaixo mostra o dispositivo em ação. O vídeo foi editado em inglês para que pudesse ser compreendido por um público internacional, mas foram adicionadas legendas em português.

Sobre

Nessa página você vai ler sobre a surdocegueira, formas de comunicação, motivação e história do projeto.

Um pouco sobre a surdocegueira #

Surdocegueira é uma condição em que o indivíduo tem baixa visão simultaneamente com baixa audição, muitas vezes de forma degenerativa ou completa. Uma das causas mais comuns é a Síndrome de Usher, uma doença genética rara que causa surdez ou perda auditiva e uma condição ocular degenerativa chamada Retinite Pigmentosa, que leva à perda progressiva da visão, geralmente com início na adolescência. Estima-se que a prevalência seja de 3 a 6 pessoas a cada 100.000 habitantes. Outros fatores também podem levar à surdocegueira, a estimativa é que existam 40.000 pessoas surdocegas no Brasil e aproximadamente 1,6 milhões de pessoas surdocegas no mundo.

No processo de adaptação do indivíduo é indispensável um atendimento educacional especializado e personalizado. E por ser uma condição que afeta os dois sentidos responsáveis por receber informação a distância, o tato se torna a principal forma de comunicação, que normalmente é realizada presencialmente com outra pessoa.

O uso de dispositivos eletrônicos, o acesso à informação, além do senso de independência e privacidade, tornam-se um desafio difícil de gerenciar por todos os envolvidos: a pessoa surdocega, os educadores e familiares.

Sobre mim e motivação #

Eu me chamo Anderson, eu sou um desenvolvedor independente de hardware e software, atualmente moro em Curitiba - PR. Eu tenho bastante interesse em interfaces humano computador, e em formas diferentes de interagir com dispositivos eletrônicos.

O projeto surgiu em 2015 de uma necessidade encontrada de forma inesperada: meu tio trabalhava no CODI (Centro de Orientação aos Deficientes de Itanhaém - SP) e relatou o caso de uma pessoa surdocega recém-chegada e como eles tinham dificuldade de integrá-la nas atividades do centro, além do fato de ela passar bastante tempo sozinha sem poder interagir com outras pessoas. Ela se comunicava principalmente por escrita alfabética, onde cada letra era escrita em sequência em sua palma da mão, formando frases que às vezes levavam minutos para serem entendidas.

Eu ainda estava na faculdade e fiz uma busca rápida para tentar achar algo que pudesse ajudar. Dispositivos como a linha braille eram muito caros e projetos de acessibilidade, como as luvas eletrônicas de escrita alfabética, não estavam disponíveis no mercado, além disso, a informação sobre o funcionamento/usabilidade era limitada.

Durante uma competição de hardware internacional, resolvi inscrever o projeto de uma plataforma aberta para desenvolvimento de dispositivos digitais táteis acessíveis chamada Tact Tiles. Mais tarde, como validação do projeto, criei uma luva que permitia enviar e receber mensagens de texto pelo tato.

Como a pessoa surdocega se comunica? #

Existem muitas formas de uma pessoa surdocega se comunicar, o método usado depende de diversos fatores e é escolhido caso a caso dependendo das necessidades de cada um.

Ilustração mostrando duas mãos em contato para comunicação por Libras Tátil.

Libras Tátil Método comum de comunicação onde o interlocutor realiza gestos complexos enquanto a pessoa surdocega os sente, como cada gesto pode representar uma palavra é uma forma eficiente de se comunicar.

Ilustração de uma mão sentindo os lábios e bochecha de outra pessoa para o método Tadoma.

Tadoma Funciona como leitura labial tátil, a pessoa surdocega sente o rosto do interlocutor conseguindo distinguir as palavras ditas, normalmente usado por pessoas que eram surdas com habilidade em leitura labial e perderam a visão.

Ilustração de um dedo desenhando uma letra na palma de outra mão.

Escrita alfabética Aqui o interlocutor desenha letra a letra na palma da pessoa surdocega, é um processo de comunicação lento mas que é relativamente simples para ambas as partes.

Ilustração de um dispositivo de Linha Braille com pinos em relevo e botões de navegação.

Linha braille O dispositivo ideal para uso pessoal da pessoa surdocega, permitindo a inclusão digital. Possui um teclado braille e células mecânicas que exibem caracteres em relevo, porém seu custo pode facilmente chegar a dezenas de milhares de reais, dependendo do modelo e capacidades.

Desafio de interação humano-computador #

Para o uso da tecnologia, utilizamos nossos sentidos de visão e audição. Poucos equipamentos foram projetados para pessoas que têm limitações sensoriais e, quando a condição afeta ambos os sentidos, aparece um problema difícil de resolver: como converter um meio de comunicação tátil já existente para o meio digital?

Linguagens de sinais podem ser convertidas digitalmente por meio de câmeras ou dispositivos vestíveis, porém a audição ainda é essencial para o uso. Formas táteis dessas linguagens são inviáveis do ponto de vista técnico, pelo fato de usarem dispositivos mecânicos avançados como braços ou mãos robóticos. A alternativa ideal é a linha braille, porém muitas vezes o preço é proibitivo.

Durante a pesquisa inicial, foi encontrada a Mobile Lorm Glove, um dispositivo vestível no formato de uma luva que transcrevia palavras em gestos usando motores de vibração e também funcionava como um teclado. Um dispositivo similar é a DBglove, que usava um outro tipo de alfabeto tátil. Ambos os dispositivos não estavam à venda em 2015. O projeto surgiu então para criar uma plataforma de desenvolvimento de dispositivos digitais táteis acessíveis chamada Tact Tiles.

Foto em detalhe de uma célula tátil (tile) sendo costurada em um tecido, mostrando os fios de conexão.

Tact Tiles É uma plataforma aberta para desenvolvimento de dispositivos de interação tátil, consiste de uma placa principal com capacidade de conexão com até 32 células táteis (tiles) que são sensores de toque com um motor de vibração. Essas células podem então ser costuradas em dispositivos vestíveis e configuradas para representarem letras usando gestos.

Escolha do alfabeto tátil #

No início do projeto, foi investigada a possibilidade de criar uma linha braille de baixo custo, porém essa ideia foi rapidamente descartada devido à complexidade mecânica da ativação de cada ponto da célula braille, além disso, a pessoa surdocega ainda não tinha aprendido braille. A alternativa escolhida a ser digitalizada foi o alfabeto tátil manual.

Existem muitos tipos de alfabetos táteis, alguns com muitos pontos, outros com gestos complexos (que podem ser difíceis de simular usando as células táteis). Era necessário escolher um com bom balanceamento entre número de pontos e complexidade dos gestos.

Diagrama da mão humana com 16 pontos numerados correspondentes ao alfabeto Malossi usado na luva.

Foi então escolhido o alfabeto tátil Malossi, em que 16 pontos são usados para representar o alfabeto. Os pontos seguem uma ordem lógica sequencial, e alguns são tocados e outros são beliscados. O belisco é um gesto que não pode ser traduzido facilmente e foi substituído por um gesto de toque duplo/dois pulsos de vibração. Também o fato de ter 16 pontos, e esse número ser múltiplo de 8, ajuda no dimensionamento do circuito.

Limitações #

A Luva Helena resolve um problema muito específico: ela é uma alternativa de baixo custo à linha braille para pessoas surdocegas. O projeto ainda está em desenvolvimento e possui alguns obstáculos ainda a serem superados, como o tempo de produção artesanal de um exemplar, baixa robustez mecânica por conta do número de fios, e necessidade de mão de obra especializada para montagem. Esses fatores tornam inviável o seu uso cotidiano e elevam o custo de cada unidade.

A principal limitação do dispositivo é a velocidade de leitura, a luva escreve letra a letra na palma da mão do usuário. Isso pode ser uma ajuda quando a principal forma de comunicação é a escrita alfabética. Comparada com a linha braille ou libras tátil, a velocidade de leitura é bem inferior.

Algumas sessões foram realizadas com a pessoa surdocega com resultados bem promissores. Ficou evidente que a curva de aprendizado é bem menor do que o esperado e que é necessário que a usabilidade do dispositivo esteja bem definida para que a explicação de seu funcionamento seja o mais breve e concisa possível, para não gerar dúvidas.

A proposta do projeto é funcionar como uma ponte para inclusão digital e social. A pessoa surda e cega não precisa de outra pessoa fisicamente presente dando atenção exclusiva. Ela escreve mensagens, envia, e recebe as respostas, podendo eventualmente ter suas próprias anotações ou pesquisas.

Projetos de acessibilidade têm notoriedade por não serem viáveis economicamente. A pesquisa é cara, a validação é cara, a produção é cara, e o público-alvo normalmente precisa de dispositivos mais acessíveis e de baixo custo. Por isso o projeto é documentado e divulgado online para que possa receber contribuições de qualquer pessoa que queira ajudar ou estudar sobre.

Futuramente a luva também pode servir como ferramenta educacional no processo de adaptação de pessoas que estão perdendo visão e audição, embora atualmente não exista uma técnica pedagógica desenvolvida em torno dela.

Atualmente existe apenas uma unidade funcional, que é usada para desenvolvimento. Mais unidades serão montadas artesanalmente na próxima iteração do projeto, onde o foco será na robustez mecânica e na redução do custo.

O tempo dedicado ao desenvolvimento desse projeto é limitado e houve alguns hiatos ao longo dos anos. Caso tenha interesse em ajudar ou quiser conversar sobre o projeto, entre em contato.

Fontes

Essa página é para imersão nos conteúdos relacionados a surdocegueira e projetos de acessibilidade. Sinta-se livre para contribuir com novas fontes e referências. Infelizmente a maior parte dos conteúdos estão em outras línguas, e dependendo do formato não possui legendas.

Cultural #

Filme: Planet of Snail - 2012 É um lindo documentário sul-coreano sobre um casal cada um com sua forma particular de viver, um deles é um poeta cego e surdo. O filme acompanha o dia a dia dos dois com atenção aos pequenos gestos, ao silêncio e à forma como eles se comunicam e cuidam um do outro. Assista aqui o filme em coreano com legendas em inglês

Filme: Miracle Worker - 1979 Helen Keller, cega, surda e muda desde bebê, cresce com muita dificuldade de se comunicar e acaba ficando agressiva, colocando a si mesma e os outros em risco. Sem saber o que fazer, seus pais pensam em interná-la, mas procuram ajuda no Instituto Perkins, que envia Annie Sullivan para ser sua tutora. Com paciência, insistência e cuidado, Annie consegue se comunicar com Helen e ensiná-la a usar a linguagem de sinais. Assista aqui o filme em inglês

Filme: Borboletas de Zagorsk - 1992 É um documentário da BBC sobre uma escola para crianças surdas e cegas em Zagorsk, perto de Moscou, e sobre como elas aprendem a se comunicar. Assista em português

Filme: Communication With Deaf Blind People - 1964 Documentário produzido pela Fundação Americana para o Cego (AFB) e mostra diversos exemplos de como pessoas surdacegas se comunicam. Assista no youtube legendas em português geradas

Projetos de acessibilidade #

Mobile Lorm Glove Desenvolvida pelo Design Research Lab Berlin, permite que surdocegos enviem e recebam mensagens usando o alfabeto Lorm. Ted Talk | Vídeo Original

dbGLOVE Luva baseada no alfabeto malossi que permite comunicação digital bidirecional através de toques e vibrações na palma da mão, fortemente influenciou o projeto da Helena Glove. Demo 1 | Demo 2

Wonder Glove Luva baseada no alfabeto Lorm que utiliza toque na palma da mão e vibração no verso para comunicação. Mais informações

TATUM Sistema de uma mão robótica para comunicação tátil para surdocegos. Veja em ação Assista ao vídeo

Libras Tátil e Distantismo Demonstração e explicação sobre Libras Tátil e o conceito de distantismo na comunidade surdocega. Assista aqui

Intelligent Glove For Group Conversation Pesquisa em e-têxteis para permitir que surdocegos compreendam conversas em grupo em tempo real. Notícia NTU | Conceito

SPEECHLESS (Lorm Hand + Lorm Glove) Outra iniciativa do Design Research Lab Berlin focada na tradução digital do alfabeto Lorm. Veja o projeto

Hawking Aplicativo de comunicação para surdocegos com suporte a múltiplos inputs. Assista ao vídeo

Good Vibes Solução que utiliza apenas o smartphone para comunicação via código Morse. Demonstração

Smart Deaf/Blind Communicator Dispositivo esloveno de comunicação tátil acessível, impresso em 3D. Vídeo do projeto

Alfabetos táteis - Diversos exemplos

Helen Keller Services - Instituto de Nova York

Apoie

Visibilidade do projeto #

A Helena Glove precisa alcançar as pessoas certas para se tornar realidade. Visibilidade significa conectar o projeto com indivíduos e famílias que precisam, instituições e educadores que podem colaborar e desenvolvedores que querem contribuir.

Como você pode ajudar #

Compartilhe o projeto Se você conhece pessoas que trabalham com acessibilidade, educação especial ou tecnologias assistivas, mostre esse site para elas.

Conecte com instituições Se você tem contato com escolas especiais, associações de pessoas cegas ou surdocegas, centros de reabilitação ou universidades, proponha uma parceria para validação, desenvolvimento e eventualmente doação de unidades.

Divulgue em comunidades maker Se você frequenta hackerspaces, fablabs ou comunidades de hardware aberto, divulgue o projeto. O projeto precisa de pessoas que sabem soldar, programar e trabalhar com eletrônica. Replicar o projeto em nucleos é uma forma de ajudar indivíduos que precisam em suas comunidades locais.

Indique pessoas que precisam Se você conhece uma família com alguém surdocego, entre em contato. O projeto ainda está em desenvolvimento, mas é importante mapear a demanda real.

Desenvolvimento do projeto #

A Helena Glove precisa de colaboradores em diferentes áreas para evoluir de protótipo funcional para dispositivo estável e replicável.

Áreas de colaboração #

Hardware: Simplificar montagem, diminuir custo e validar design.

Interface e usabilidade: Definir como o dispositivo será controlado, capacidades, personalização. Atualmente o dispositivo troca mensagens de texto apenas com um celular proximo, mas deve ser estendida essa funcionalidade para permitir gerenciamento de múltiplas conversas, escrever/ler notas pessoais, fazer pesquisas na internet, etc.

Documentação: Escrever instruções de montagem, criar vídeos tutoriais, traduzir conteúdo, produzir materiais educativos.

Marketing: Divulgar o projeto em redes sociais, blogs e comunidades.

Financiamento: Financiamento direto de pessoa física ou jurídica também é bem-vindo, entre em contato e seu nome será adicionado à lista de patrocinadores. Ou avise sobre editais públicos que possam beneficiar o projeto.

Financiamento e viabilidade #

A Helena Glove é desenvolvida atualmente de forma independente, por um único desenvolvedor e com recursos próprios. O desenvolvimento acontece como projeto pessoal nos momentos livres, o que significa avanço lento. Atualmente alguns milhares de reais já foram gastos nos protótipos e centenas de horas para se chegar no estado atual.

Por que precisa de financiamento #

Com apoio financeiro, seria possível dedicar mais tempo ao projeto por alguns meses, desenvolvendo o próximo protótipo, testando com usuários e documentando tudo para replicação.

Transparência: Este não é um projeto com fins lucrativos. O objetivo é tornar a tecnologia acessível e aberta. Recursos serão usados para componentes, ferramentas, protótipos e doação de unidades montadas.

Campanha de financiamento coletivo #

Uma das ideis para viabilizar o projeto é fazer uma campanha de crowdfunding no Catarse ou similar.

O custo atual de uma unidade montada artesanalmente é de R$ 1.500,00, o objetivo da campanha seria converter para cada múltiplo desse valor uma doação de uma luva para indivíduos ou instituições. Caso mais de R$ 6.000,00 sejam arrecadados, será possível custear o tempo de pesquisa e desenvolvimento para a próxima versão do dispositivo, reduzindo o custo e tempo de produção para as próximas unidades.

Critérios para doação #

Um formulário será disponibilizado para que você possa indicar pessoas que gostariam de comprar ou receber um dispositivo como doação. A prioridade será para famílias que não possuem recursos financeiros para adquirir um dispositivo, com preferência geográfica (Curitiba, São Paulo e região). Haverá entrevista para entender necessidades e avaliar adequação do dispositivo para cada caso.

Contato #

Se você tiver alguma dúvida ou quiser conversar, entre em contato pelo Instagram do projeto @HelenaGlove ou pelo email

Informações Técnicas #